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Armanda Passos: Blocos de Desenhos ESBAP é o título da primeira exposição de desenhos da pintora da Régua radicada no Porto, comissariada pela filha, Fabíola Valença. São mais de 300 desenhos a tinta-da-china sobre folhas de blocos da ESBAP (Escola Superior de Belas Artes do Porto), hoje expostos em molduras na Galeria dos Leões da Reitoria da Universidade do Porto. Um terço destes desenhos, datados dos anos 70-80 do século XX, pertence à colecção do Museu FBAUP, sendo que existem mais de 400, contando com os do espólio particular da pintora.

Álvaro Siza classifica no segundo livro sobre a obra e a pintora, que se tratam de "desenhos feitos nos intervalos de aulas, os puríssimos desenhos lineares dos anos 70, tornam-se progressivamente densos e complexos".

O arquitecto considera a obra de Armanda Passos inconfundível, sendo o autor do traço da Casa Armanda Passos, na Foz do Porto, que alberga o acervo da pintora.

Retratam a espécie humana e a espécie de animais que a primeira acompanha, fundindo-se porventura uns e outros. Assim, mulheres enormes sugerem modos e características de aves, não de anjos, parecendo soltar-se do papel, libertando-se do branco para ganharem as cores do mundo que só existem imaginárias aos olhos do observador. E porque não mães volantes, com pés na terra, como árvores de raízes firmes e braços ao vento, ganhando diferentes formas e emoções. Pássaros são elas em espírito e vontade, e expressam-no no gesto preso a um corpo disforme que não condiz com a liberdade evocada. Eis a chamada de atenção para o mundo feminino dos afectos e poderes tantas vezes reprimidos.

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E eis a sensibilização para os animais tantas vezes descurados e maltratados.

Mais escreve Álvaro Siza no segundo livro lançado nesta exposição, com texto seu: "Os desenhos não são a lápis, carvão ou sanguínea. Armanda Passos, como já não suportava as folhas brancas, riscou o silêncio a linha preta de tinta-da-china, usou aparos, resultou traço duro e definido. Criados na década de 70, enquanto aluna da ESBAP e corridos 80 a final de 90, como ritmo seguido de respirar em exercício químico. O hábito adquirido tornou-se vício. O suporte era sempre o mesmo, cadernos de desenho da Escola. Desenhar ali, e conseguir não destruir nenhuma folha, tornava-se habitual como se os anos não fossem de rascunho".

Já Mário Cláudio abre o primeiro livro de desenhos de Armanda Passos (Árvore, 2001) com a máxima Eu digo que as mulheres projectam o mundo. Precisamente, o que a pintora nos transmite não apenas através destes e de outros desenhos, mas de toda a vasta obra algo enigmática que a torna notória, definida e mesmo dura sem alienar as espécies desenhadas da poesia da vida.